Sérgio Pinto Monteiro*

Em 18 de julho de 1945, há 78 anos, a pátria recebia, de braços abertos e corações em festa, os bravos do primeiro escalão da Força Expedicionária Brasileira e do 1º Grupo de Aviação de Caça que retornavam do teatro de operações da Itália, onde soldados e aviadores escreveram com coragem, sangue, suor e lágrimas, páginas gloriosas da história do nosso país.

O efetivo brasileiro na campanha da Itália era constituído por 25.334 militares da FEB e 451 integrantes do 1º Grupo de Aviação de Caça, além de cerca de 60 componentes de órgãos não divisionários, como o Serviço Religioso, a Justiça Militar, o Banco do Brasil e os Correspondentes de Guerra. Nesse contingente estão incluídas 73 enfermeiras militares, 67 do Exército e seis da Força Aérea. Entre os integrantes do Serviço de Saúde da FAB encontrava-se o Tenente-Médico Lutero Vargas, filho do então presidente – e ditador – Getúlio Vargas. Nossas perdas no teatro de operações constituíram-se de 454 militares do Exército e oito aviadores da FAB. O número de feridos em combate ficou em torno de 2700.

A capitulação das últimas tropas alemães e italianas deu-se ao longo do dia 2 de maio de 1945 e a ordem de cessar fogo dos aliados, no dia seguinte. A assinatura da rendição tedesca somente ocorreu em 8 de maio. No âmbito da Força Expedicionária Brasileira, o General Mascarenhas de Moraes, no Boletim Interno nº 78 da 1ª DIE, de 3 de julho de 1945, traçou diretrizes e fixou normas reguladoras do deslocamento dos elementos da FEB para o Brasil, em escalões sucessivos, à partir do porto de Nápoles, tendo como destino o Rio de Janeiro:

Escalão 1 – partiu em 06 de julho no navio americano General Meigs, com 4931 expedicionários, chegando em 18 de julho;

Escalão “A” saiu em 12 de julho no navio Pedro I, com elementos do QG e Cia Cmdo da 1º DIE, maior parte do Esquadrão de Reconhecimento, um contingente do 6º RI e praças sentenciadas, chegando em 3 de agosto;

Escalão “B” zarpou em 26 de julho no vapor Pedro II, com o 9º BE, ancorando em 13 de agosto;

Escalão 2 – partiu em 12 de agosto no navio americano Mariposa, com 6187 expedicionários, chegando em 22 de agosto;

Escalão 3 – saiu em 28 de agosto no navio Duque de Caxias, com 1801 militares, ancorando em 19 de setembro;

Escalão 4 – zarpou em 4 de setembro no navio “General Meigs”, com 5342 expedicionários, ancorando em 19 de setembro;

Escalão 5 – partiu em 19 de setembro no transporte “James Parker”, com 2742 militares, aportando em 3 de outubro.

Esses navios transportaram, também, pequenos contingentes de diferentes Unidades, inclusive dos Órgãos Não Divisionários.

A história não se reescreve como tentam, inutilmente, alguns jornalistas e “escritores” de plantão. No início da Segunda Guerra Mundial, em 1939, vários integrantes do governo, inclusive o próprio presidente, tinham posições germanófilas. Vargas chegou a enviar a Hitler cumprimentos por seu aniversário. Mudanças na política interna, pressões dos Aliados e interesses econômicos, levaram Getúlio a trocar de lado. Isso é notório. Em consequência, o ditador temia o cenário que se vislumbrava para o Brasil com a derrota do Eixo e o retorno vitorioso da FEB, que fora defender a democracia e a liberdade na Europa, enquanto internamente vivíamos, desde 1937, sob a ditadura do Estado Novo. Vargas percebeu que a sociedade brasileira, já contaminada pelos ideais democráticos, exigiria a queda do seu regime autoritário, o que acabou acontecendo três meses depois, em 29 de outubro de 1945, quando o Alto Comando do Exército depôs o presidente-ditador. Antes da queda, Getúlio tentou livrar-se da FEB ao determinar ao Ministro da Guerra, em 6 de julho, data do embarque para o Brasil do Escalão 1, que emitisse o Aviso 217-185, dissolvendo, na prática, a Força Expedicionária Brasileira. Ou seja, a FEB foi extinta ainda no navio. Há um episódio, pouco conhecido, relacionado ao retorno do insigne General Mascarenhas de Moraes. O Comandante da FEB regressou da Itália por avião americano, em 6 de julho, com parada de três dias em Natal e Recife, acompanhado de quatro Oficiais de seu Estado-Maior, um deles o Ten Cel Humberto de Alencar Castelo Branco. Sua chegada ao Rio de Janeiro, marcada para o dia 11, às 16 horas, no Aeroporto Santos Dumont, seria o momento de consagração do ilustre militar. Previa-se que uma multidão o receberia apoteoticamente. Entretanto, os maus fados não quiseram assim. Seu avião foi direcionado à Base Aérea de Santa Cruz, a 40 Km do Rio de Janeiro, supostamente em virtude do mau tempo, onde não havia ninguém para recebê-lo. Por outro lado, sabe-se que, no mesmo horário, o Santos Dumont funcionava normalmente. É evidente que alguma autoridade, temerosa do prestígio e força moral do Comandante da FEB, impediu a população, e a própria família, de saudar o ilustre militar. Teria sido o presidente Vargas, temeroso da liderança e do poder moral e militar do General Mascarenhas? Há uma possibilidade razoável de que a ordem tenha sido realmente do Getúlio, eis que, logo em seguida, ele o indica para representar o Brasil na posse do presidente do Peru, o que parece demonstrar a sua intenção de manter o General à distância. Quem sabe, um dia conseguiremos identificar o autor dessa ordem sórdida, desumana e impatriótica.

O regresso ao lar dos nossos pracinhas teve efusivas comemorações, impregnadas de forte emoção e intensa vibração cívica. Antes de chegarem ao Brasil, as tropas receberam uma calorosa homenagem dos nossos irmãos portugueses. O transporte “Duque de Caxias”, da Marinha do Brasil, com o Escalão 3 que partira de Nápoles em 28 de agosto, fez uma parada em Lisboa no dia 3 de setembro, ocasião em que o III Batalhão do Depósito desfilou em agradecimento às autoridades e ao povo português.

A chegada dos pracinhas dos diversos escalões no Rio de Janeiro foi sempre saudada com grandes manifestações populares de reconhecimento da bravura e heroísmo dos nossos militares. Em 18 de julho, há 78 anos, a cidade do Rio de Janeiro tinha menos de dois milhões de habitantes. Calcula-se que cerca de 800 mil pessoas lotaram a Avenida Rio Branco. O povo nas ruas, entre emocionado e orgulhoso, recebia nossos expedicionários do primeiro escalão em meio a gritos e lágrimas de apreço e gratidão. Foram momentos tão fortes que, aos cinco anos, encarapitado nos ombros do meu saudoso pai, também militar, até hoje guardo em minha memória algumas cenas esparsas daquele momento glorioso. Há vídeos, fotos e reportagens disponíveis que permitem um retorno nostálgico àqueles dias inesquecíveis. A Parada da Vitória, com o desfile dos soldados e aviadores, foi memorável. Dela participou, inclusive, um contingente americano representando os Aliados.

Alguns expedicionários, que há 78 anos venceram os nazistas, continuam entre nós, derrotando o tempo, inimigo inexorável do ser humano. Aos pracinhas, em especial a esses bravos sobreviventes, dedico este artigo, simples como coisa de soldado, mas pleno de gratidão e reconhecimento. E como patriota, aos 83 anos, lamento profundamente o silêncio, injusto e criminoso, da mídia e do meio acadêmico, sobre esta data em que relembramos o regresso ao lar dos nossos heróis.

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*o autor é historiador, Veterano do Exército Brasileiro, Patrono do Conselho Nacional de Oficiais da Reserva, Presidente da Liga da Defesa Nacional-RJ, membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil, da Academia Brasileira de Defesa e do Instituto Histórico de Petrópolis.